20 anos do ENG Estúdio — Som, memória e uma parceria com a Ikoré

Histórias da Tradição e Balaio de Memórias

A IKORẼ – Produtora Cultural

Gravação de Tradição Oral - Transcrição e Recuperação de K7 para acervo.

Celebrar os 20 anos do ENG Estúdio é também revisitar encontros que marcaram a trajetória do estúdio.

Alguns trabalhos passam pelo estúdio como projetos importantes; outros se tornam parcerias duradouras, construídas ao longo de muitos anos de troca artística, técnica e cultural.

Uma dessas parcerias é com a produtora cultural Ikoré e com a pesquisadora, jornalista e produtora Angela Pappiani.

Foi nesse contexto que nasceu o primeiro trabalho com a Ikoré.


Angela Pappiani
 é formada em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e construiu uma trajetória dedicada à produção cultural, à pesquisa e à documentação de saberes tradicionais. Ao longo de sua carreira trabalhou em veículos da grande imprensa e desenvolveu projetos que se dedicam à preservação de narrativas, memórias e tradições, especialmente ligadas a culturas indígenas e à tradição oral.

Som como memória

Para o ENG Estúdio, esse trabalho teve um significado especial. Não se tratava apenas de digitalizar fitas, mas de colaborar na preservação de um conjunto documental construído ao longo de décadas de pesquisa, encontros e escuta.

Saber que a digitalização desse acervo era um desejo antigo de Angela tornou o processo ainda mais significativo.

Contribuir para que essas gravações possam ser preservadas, organizadas e disponibilizadas amplia o alcance de um trabalho que ultrapassa o âmbito individual e passa a integrar um patrimônio compartilhado.

Celebrar os 20 anos do ENG Estúdio também é reconhecer parcerias como essa — onde o áudio deixa de ser apenas técnica e passa a ser ferramenta de memória, cultura e continuidade.

 Histórias da Tradição – Vozes que atravessam o tempo

O primeiro projeto realizado pelo estúdio foi a gravação e edição das narrações da coleção Histórias da Tradição, um projeto dedicado à preservação e difusão de narrativas tradicionais.
Nesse trabalho realizamos a gravação dos narradores e atores Cristiana Ceschi e Cristiano Meirelles, responsáveis por dar voz aos textos da coleção.
As sessões de gravação foram conduzidas com cuidado especial na interpretação e na clareza da narrativa.
A direção editorial e conceitual de Angela Pappiani foi fundamental durante todo o processo.
Como pesquisadora e produtora atenta aos detalhes da tradição oral, Angela orientou as gravações e a edição dos áudios, garantindo que o resultado final preservasse o espírito e o ritmo das histórias.
No estúdio, o trabalho consistiu em captar as vozes, editar o material e construir uma escuta clara e envolvente para os textos — permitindo que as narrativas pudessem circular também em formato sonoro.Esse projeto marcou o início de uma parceria baseada em confiança e respeito mútuo entre produção cultural e trabalho técnico de áudio.

Balaio de Memórias

quando o som se torna arquivo

Em 2024, a parceria foi retomada em um projeto de natureza completamente diferente, mas igualmente significativo: a digitalização do acervo sonoro que hoje integra o projeto Balaio de Memórias.

Quando conheci Angela Papiani, uma das primeiras coisas que ela me disse foi:

“Eu preciso digitalizar meu acervo.”

Ela falava de centenas de fitas cassete — registros acumulados ao longo de anos de trabalho, encontros, deslocamentos e escutas. Eram documentos vivos, guardados em suporte magnético, aguardando o momento de atravessar definitivamente para o meio digital.

Digitalizar fitas cassete é um processo em tempo real.
Se uma fita tem uma hora, é uma hora de escuta. Sem atalhos.
O tempo do cassete determina o ritmo do trabalho.

Foram, ao final, 370 fitas.
Mais de 400 horas de áudio.

Quando iniciamos, as fitas chegaram em lotes. Caixas com cinquenta unidades por vez. Cada caixa carregava não apenas gravações, mas camadas de memória e contexto.

O estado de conservação nos chamou a atenção. Estavam, em sua maioria, muito bem preservadas — o que é raro quando falamos de fita magnética. Ainda assim, cada unidade exigiu um procedimento individual.

O primeiro cuidado foi técnico: alinhar os toca-fitas às condições originais de gravação. Fita por fita, ajustamos o azimute do cabeçote para alcançar o ponto de maior definição e equilíbrio sonoro. Pequenas variações de alinhamento podem comprometer frequências e, principalmente, a clareza da voz — elemento central em um acervo como este.

Rapidamente compreendemos que não se tratava apenas de inserir o cassete e gravar. Muitas fitas continham registros feitos em contextos distintos, com gravadores diferentes, variações de nível e mudanças abruptas de ambiente. Era necessário acompanhar atentamente cada transição.

Isso significou ouvir integralmente as 370 fitas.

E foi nesse mergulho que o trabalho deixou de ser apenas técnico.

Ao longo das escutas tivemos contato com relatos, situações cotidianas, reflexões e registros de campo — fragmentos de vida que talvez não tivessem sido pensados originalmente como arquivo, mas que hoje constituem um documento cultural de enorme relevância.

Durante o processo, cerca de dez fitas se romperam na reprodução. O tempo fragiliza o material e o mecanismo do gravador pode tensionar além do limite. Nessas situações, o procedimento era interromper imediatamente o equipamento, desmontar cuidadosamente o cassete, localizar o ponto da ruptura e realizar a emenda manual da fita. Em alguns casos foi necessário substituir a carcaça e os carretéis por peças novas, garantindo estabilidade mecânica para que a transferência pudesse continuar com segurança.

Foi um trabalho minucioso, quase cirúrgico.

O objetivo sempre foi preservar ao máximo o conteúdo original. Em mais de 400 horas de gravação, a perda total não chegou a um minuto e meio — um resultado possível graças ao estado de conservação do acervo e à escuta constante durante todo o processo.

Não foi uma transferência automática.

Foi uma escuta vigilante.

Foi um trabalho intenso, artesanal e comprometido.

E temos a convicção de que esse acervo continuará produzindo encontros, pesquisa e memória para muitas pessoas.