Duofel Plays the Beatles

Trabalho: Masterização Para Vinil
Clientes: Duofel
Projeto: LP Duofel Plays the Beatles – Vinil

Beatles de Duofel chega em vinil

POR CARLOS BOZZO JUNIOR

Completando a trilogia iniciada com CD e DVD, a dupla de violonistas do Duofel lança o vinil “Duofel Plays the Beatles”. O disco é para poucos, apenas 300 cópias foram prensadas, com nove das 11 músicas do CD homônimo lançado pelo duo, em 2009. Em 2010, saiu um DVD, com o mesmo título, trazendo 15 músicas do quarteto de Liverpool, gravadas onde tudo começou, no famoso The Cavern Club. O vinil chega para fechar um ciclo de 30 anos de sólida carreira dos artistas.

Música em Letras esteve no estúdio da dupla e entrevistou o alagoano Fernando Melo,59, que completa 60 anos no mesmo dia (9) e mês (outubro) em que nasceu John Lennon (1940-1980). Segundo o violonista, as coincidências não param por aí, pois seu companheiro de som, o paulistano Luiz Bueno, 60, é do mesmo signo (Peixes) que George Harrison (1943-2001).

Leia, a seguir, trechos da prazerosa conversa que Melo teve com o Música e Letras. Assista, no final do texto, ao vídeo em que o violonista interpreta, com uma viola de 10 cordas, uma pequena parte de “Here Comes the Sun”, de George Harrison.

ANTENDENDO A PEDIDOS

Em meados dos anos 1990, o Duofel “causava” quando tocava a música “Norwegian Wood”, de Lennon e McCartney. “Todo mundo adorava. Recebemos da gravadora (Velas) uma proposta para gravarmos um disco só de Beatles, mas recusamos embora tenham oferecido uma grana alta de adiantamento”, disse o músico sem revelar o valor, justificando que, na época em que a oferta foi recusada, o duo queria realizar apenas músicas autorais. “O Hermeto (Pascoal) nos aconselhou a ter cuidado com pessoas que tentassem mudar o rumo de nossas carreiras. Segundo ele, pelo fato de termos nossas músicas e nosso jeito de tocar, tínhamos que nos estabelecer no mercado como um duo de violões de música autoral, e não como intérpretes”, disse o artista.  Ao invés de fazer um disco com música dos Beatles, o duo gravou “Kids of Brazil” (1996), disco que deu ao mestre Hermeto Pascoal seu primeiro prêmio (Sharp) como arranjador.

A dupla mudou de gravadora. Foram para a Trama. Na casa nova lançaram “Atenciosamente, Duofel” (1999), disco em que prestam homenagens diretas e indiretas a todas as pessoas que os ajudaram. Entre outros, homenagearam a cantora Tetê Espindola para quem arranjaram e acompanharam “Um Trem para as Estrelas”, música vencedora do Festival dos Festivais, em 1985, da TV Globo. Indiretamente, a dupla homenageou os Beatles gravando pela primeira vez a música que sempre fora sucesso em suas apresentações, “Norwegian Wood”.

A produção do Duofel leva a todos os shows um formulário para ser preenchido por quem quiser receber notícias, lançamentos ou até mesmo interagir com a dupla. Cerca de 4.000 pessoas estão cadastradas. Foram elas que responderam a pesquisa informando o que gostariam de receber de presente para comemorarem juntos os 30 anos de sólida carreira do duo. O resultado foi quase unânime: 80% dos fãs pediram para que eles gravassem um disco com músicas dos Beatles.

SUCESSO ABSOLUTO

O CD “Duofel Plays The Beatles”, gravado em 2009, além de ter atraído um público novo, é um dos mais vendidos (cerca de 10 mil) na discografia da dupla. “Com o nome dos Beatles, trouxemos gente nova para nos conhecer. Antes de gravar, tocávamos todas as terças-feiras, às 23h, em um bar de São Paulo, para testar o repertório e sentir a reação do público. Lotava a casa sempre, mesmo com dia e horário ingratos. A maioria aparecia por conta do nome do Beatles, mas acabavam por nos conhecer e adoravam o som”, disse Melo.

Depois de terem gravado o CD, os violonistas realizaram uma série de pocket shows. Em um deles, conheceram o presidente do Revolution Fan Club (fã-clube dos Beatles), Marco Antonio Mallagoli, que, encantado com o som, sugeriu que a dupla fosse para a Inglaterra gravar um DVD no The Cavern Club. Tudo com o intuito de deixar claro que o sonho não havia acabado. “É uma espécie de documentário com a gente saindo de São Paulo, relembrando nossas histórias em conjuntos de baile tocando os Beatles, passando por onde eles estiveram e chegando até onde tudo começou.”

Após realizarem o DVD, pensaram em gravar o vinil “Duofel Plays the Beatles”, fechando a história que a dupla tem com o quarteto. “Nós e os fãs adoramos a ideia de termos um LP e fomos atrás”, disse o músico afirmando ter gasto uma “grana alta” para fabricar as 300 cópias do disco. “É caro e leva tempo. Saiu por volta de R$ 14 mil. Só a fábrica demorou dois meses para entregar. O processo todo levou de quatro a cinco meses”, falou o músico. Entre as faixas do disco, “Here, There and Everywhere”, “In my Life”, “Eleanor Rigby” e “Here Comes the Sun”, todas de Lennon e McCartney, com exceção da última, autoria de George Harrison.

O disco custa R$ 100, em shows, e R$ 90, mais o frete, pela internet. Para a aquisição da bolacha, que pode ser autografada pelos artistas e despachada em uma embalagem especial, basta enviar um e-mail solicitando a compra para finemusic@gmail.com ou para duofel@ig.com.br. Na próxima semana, será possível encontrar o disco em algumas lojas do ramo. No Rio de Janeiro, na Livraria da Travessa, e, em São Paulo, na livraria Cultura.

Este não é o primeiro disco do Duofel em vinil. Em 1990, “As Cores do Brasil”, primeiro disco da dupla, foi lançado na Europa em CD, e, no Brasil, relançado pela gravadora Eldorado, em vinil e em fita cassete. “A tiragem do vinil foi de cerca de 3.000 discos. Na internet, você encontra por R$ 250”, contou Melo, enfatizando ser o disco um item de colecionadores.

EQUIPAMENTO

Perguntei para Melo quantos dos 4.000 fãs cadastrados devem comprar o vinil. “Poucos”, disse ele, afirmando que um número reduzido de pessoas possui equipamento para isso. “É uma dificuldade. Hoje para se ter um bom equipamento gasta-se uma fortuna”, falou o músico, que, antes de lançar a bolacha, adquiriu por cerca de R$ 3.000 um equipamento para escutá-lo. “Só na agulha para o toca-discos, gastei R$ 85”, falou o artista.

Melo, antes de mudar-se em 1975 de Maceió para São Paulo, tinha cerca de 500 discos de vinil. Hoje é dono de cerca de cem. “Tenho Beatles, Egberto Gismonti, mas todos de rock progressivo como Yes, King Crimson, Pink Floyd ficaram em Maceió. Doei para um amigo porque não dava para trazer por conta do peso”, contou o músico.

Quando estava em Alagoas, Melo morava com os pais e não tinha gastos. O violonista já tocava em bailes e com o dinheiro ganho só comprava discos. “Gastava tudo em vinil. Olhava no catálogo e encomendava na Eletrodiscos, uma loja que não existe mais. Para mim era um paraíso, um parque de diversões. Toda segunda-feira, ficávamos na porta dessa loja ouvindo as novidades que chegavam de fora”, disse o músico sem se lembrar de qual foi o primeiro disco que adquiriu, mas foi categórico em dizer, rindo: “Deve ter sido dos Beatles”.

ESPÍRITO DO VINIL

O que mais difere o vinil de outras mídias para o violonista, além da tecnologia envolvida, é o estado de espírito para se escutar o LP. “Antes, tínhamos um tempo reservado para escutar música. A capa do LP era quase um poster e tínhamos que ficar próximos da vitrola para mudar o lado do disco, depois de uns 20 minutos. Com o disco de vinil, volta-se ao passado”, disse Melo. Segundo ele, para que um disco tenha uma boa qualidade sonora, deve conter, em cada lado, no máximo 19 minutos. “Caso contrário, os sulcos são comprimidos e a qualidade fica pior. Aqueles discos que tinham 25 ou 28 minutos, em cada lado, apresentavam sonoridade ruim por conta disso”, falou o artista, referindo-se a discos que geralmente reuniam grandes sucessos, ao vivo, ou de artistas que tiveram suas músicas lançadas por gravadoras, por exemplo, no formato “As 14 Mais”.

Segundo o violonista, com o aparecimento do CD, perdeu-se muito na parte gráfica, mas ganhou-se no áudio com a eliminação de chiados e ruídos. “Com o CD, temos um lado só. Com o vinil, às vezes, ouvíamos o lado B só depois de ouvirmos muito o lado A e entendermos do que se tratava. O CD, com a quantidade de faixas que comporta, que podem chegar até 60 minutos, é quase um álbum duplo. Era difícil artistas terem álbuns duplos. Tinha que ter muito assunto.”

MASTERIZAÇÃO

A masterização do vinil “Duofel Plays the Beatles” foi feita especialmente para este formato. “As novas gerações não sabem disso. Simplesmente pegam o material gravado e o reproduzem. Não pode. O som, mesmo sendo digital, como é o nosso caso, tem que ter um tratamento diferente. Por exemplo, na hora de masterizar para o vinil, com o intuito de se obter todas as nuances desejadas, puxa-se mais os agudos. Porque na hora de prensar o disco, perde-se os agudos. Quanto aos graves, não se pode abusar muito, senão a agulha vai pular. Além disso, fizemos o LP com 180 gramas. Quem tiver um bom equipamento, poderá notar o bom acabamento do disco”, contou o músico que contratou para o serviço o experiente engenheiro de som Ernani Napolitano.

SHOW

No dia 12 de setembro, o Duofel se apresenta ao lado do pianista Benjamin Taubkin mostrando parte do repertório do disco. “Ainda vamos decidir o que funciona mais com ele (Taubkin) no piano. Por isso, não sei o repertório exato”, disse Melo. Contudo, estão garantidas “Here, There and Everywhere”, “In my Life” e “Eleanor Rigby”, todas de Lennon e McCartney.

Assista ao vídeo com Fernando Melo tocando “Here Comes the Sun”, parte do repertório do vinil “Duofel Plays the Beatles”.

Fonte: Folha de São Paulo