OS FIGURANTES

Criação da Trilha Sonora do Espetáculo Os Figurantes (2010)
Casa Laboratório para as Artes do Teatro Gravação Externa - Som Direto - Trilha Sonora - Mixagem surround 5.1
Os Figurantes Direção artística: Cacá Carvalho Elenco: Daniel Ribeiro, Joana Levi, Juliana Grave, Laila Garin, Leonardo Ventura, Marcelo Valente e Raquel Tamaio Espaço e figurino: Márcio Medina Luz: Fábio Retti
Dramaturgia: Cláudia Barral e elenco
Assistente de figurino: Inaê Luz
Assistente de cenografia: Daniel Ribeiro
Cenotécnico: Marco Antonio Del Corral / Ateliê Madre Pelly
Concepção de trilha sonora: Ernani Napolitano e Cacá Carvalho
Gravações externas e mixagem 5.1: E.N.G Audio – Estúdio Portátil
Assistente de gravação e pesquisa: Adriana Lazarini Sales
Engenheiro de áudio: Ernani Napolitano
Operador de áudio: Erick de Paula
Autoração de DVD áudio: Júnior Lamana
Músicos percussionistas: Lucas Muraguchi, Bruno Takao Murakami e Hugo Murakami do grupo de taiko “Ishindaiko”
Fotos: Adalberto Lima, Fábio Retti e Fábio Alcover / FILO
Arte gráfica: Marcos Corrêa / Ato Gráfico
Assessoria de imprensa: Adriana Monteiro
Assistência de produção: Lívia Gabriel
Produção executiva: Pedro de Freitas / Périplo Produções
Coordenação de produção: Carla Pollastrelli
Colaboração artística: Roberto Bacci
Consultoria sobre o tema: textos de Luigi Lombardi Vallauri
Realização: Casa Laboratório para as Artes do Teatro e Fondazione Pontedera Teatro
Um processo desenvolvido em dez encontros deu origem a Os Figurantes, espetáculo da Casa Laboratório para as Artes do Teatro, com direção de Cacá Carvalho.
O convite surgiu no meio desse percurso criativo.
Na quinta-feira recebemos o contato.
Na sexta à tarde, estávamos assistindo ao ensaio.
Na terça-feira seguinte, durante o próprio ensaio, a primeira proposta de trilha sonora já estava sendo apresentada.
O tempo era curto.
A imersão, profunda.
Dramaturgia fragmentada, cidade fragmentada
Fruto das inquietações dos próprios atores, o espetáculo arrisca uma encenação não convencional.
Como apontou o crítico Luiz Fernando Ramos, na Folha de S.Paulo, a peça abre mão da estrutura dramática tradicional e aposta em ações fragmentadas, blocos de frases repetidas e tipos urbanos que não chegam a constituir personagens clássicos.
Sete figuras atravessam a cena: um bancário, uma empresária noiva, um moleque de rua, um motoboy, um mendigo, uma secretária evangélica, uma operadora de telemarketing.
Eles se entrelaçam sem convergir.
Dialogam sem se tocar.
Existem simultaneamente.
Como na própria São Paulo.
A crítica destacou momentos em que a encenação ganha potência — como quando a fala da operadora de telemarketing, reiterada e modulada corporalmente, alcança condição quase musical.
Essa observação dialoga diretamente com a concepção sonora proposta para o espetáculo.
A cidade como instrumento
A trilha foi composta a partir de sons captados em uma tarde de sábado pela cidade.
Foram coletados:
– ruídos urbanos
– crianças brincando
– reverberações naturais da Catedral da Sé
– sons noturnos de uma casa vazia
– o grave contínuo de uma geladeira antiga
– o timbre metálico de um forninho elétrico
Cada tipo urbano recebeu um ambiente sonoro específico.
Esses sons foram editados, reorganizados e sobrepostos de modo que, assim como as personagens, coexistissem em tensão constante — às vezes em uníssono, às vezes em camadas independentes, raramente em resolução.
A proposta sonora acompanhava o risco formal da montagem:
não ilustrar, mas tensionar.
Não organizar, mas revelar o caos urbano.
Espaço, imersão e 5.1
Se a encenação encontrava forte sustentação na cenografia minimalista e expressiva de Márcio Medina — como apontado na crítica — a trilha assumia o papel de expandir o espaço invisível.
A mixagem e masterização foram realizadas em sistema surround 5.1, criando uma espacialização que envolvia o público e transformava o teatro em ambiente urbano expandido.
Na estreia, como experimento adicional, sons foram executados ao vivo:
– grafite tocando o papel
– uma caixinha de música manipulada e desconstruída
– gongos e efeitos pontuais
A cena respirava som.
Processo e parceria
O processo foi leve, intenso e profundamente colaborativo.
Cacá Carvalho nos concedeu total liberdade criativa.
As trocas foram harmoniosas, precisas e abertas ao risco — exatamente como a proposta estética do espetáculo exigia.
A parceria se consolidou e se estendeu para outros trabalhos, como montagens de Hamlet e O Homem na Poltrona Escura, fortalecendo uma relação artística que se tornou também amizade.
Em 2010, Os Figurantes buscava encenar a própria vida — fragmentada, repetitiva, urbana.
Nossa trilha buscou fazer o mesmo.
Escutar o que normalmente é ruído.
Transformar repetição em ritmo.
Fazer da cidade dramaturgia sonora.
20 anos depois, seguimos fazendo da escuta o nosso ofício.
